1. QUANDO A VONTADE POLÍTICA SE SOBREPÕE À PRUDÊNCIA
Os resultados eleitorais nem sempre correspondem às expectativas de todos. Em uma democracia, a alternância de poder, as divergências ideológicas e a oposição política fazem parte do processo democrático.
Entretanto, existe uma diferença significativa entre não concordar com um resultado eleitoral e não aceitar os princípios que sustentam a própria democracia.
Quando a inconformidade se transforma em hostilidade, quando a divergência passa a alimentar o ódio e quando a disputa política se transforma em justificativa para conflitos, precisamos fazer uma reflexão que ultrapassa a esfera política.
Precisamos examinar nossa postura à luz das Escrituras Sagradas.
E um dos textos bíblicos que merece nossa atenção é o Salmo 2.
2. SALMO 2: QUANDO OS PODEROSOS SE LEVANTAM CONTRA DEUS
O salmista inicia com uma pergunta:
"Por que se amotinam as nações, e os povos tramam em vão?" (Salmo 2:1)
Nos versículos seguintes, descreve reis e governantes que se unem contra o Senhor e contra o seu Ungido, manifestando o desejo de romper qualquer vínculo de submissão.
"Façamos em pedaços as suas correntes e lancemos de nós as suas algemas!" (Salmo 2:3)
O cenário apresentado é de resistência organizada à autoridade divina.
O Salmo 2 possui um contexto histórico relacionado à oposição contra o rei ungido de Israel e uma dimensão messiânica que aponta para Jesus Cristo, o Filho de Deus.
O Novo Testamento confirma essa dimensão em Atos 4:25-28, quando os primeiros cristãos relacionam o salmo à oposição que Jesus enfrentou por parte das autoridades.
Portanto, não estamos diante de um texto que simplesmente discute disputas entre governantes. Estamos diante de uma declaração sobre a soberania de Deus e a autoridade de seu Ungido.
3. DEUS NÃO INCENTIVA A REBELIÃO. ELE ADVERTE E CONVOCA À PRUDÊNCIA.
Um dos trechos mais importantes do salmo está nos versículos 10 a 12:
"Por isso, ó reis, sejam prudentes; aceitem a advertência, autoridades da terra." (Salmo 2:10)
Observe a natureza da orientação divina.
Os governantes são chamados à prudência, à reverência e ao reconhecimento de que existe uma autoridade acima de todos os poderes humanos.
Deus não apresenta uma convocação à desordem. Apresenta uma advertência aos que exercem poder.
Essa passagem também nos oferece uma oportunidade de reflexão sobre o comportamento daqueles que, embora não ocupem cargos públicos, utilizam sua influência religiosa para alimentar confrontos e divisões.
Se a prudência é exigida daqueles que governam, por que deveria ser dispensada daqueles que professam servir a Deus?
A fé cristã não pode ser utilizada como autorização para a intolerância.
4. DISCORDAR DE UM GOVERNANTE NÃO É O MESMO QUE SE REBELAR CONTRA DEUS.
É necessário estabelecer uma distinção bíblica.
O cristão tem o direito de discordar de decisões governamentais, questionar políticas públicas, denunciar injustiças e exercer oposição política.
A Bíblia não ensina submissão cega às autoridades humanas.
Daniel aconselhou o rei Nabucodonosor a abandonar suas práticas injustas e exercer a justiça (Daniel 4:27).
O profeta Natã confrontou o rei Davi por causa de seu pecado (2 Samuel 12:7).
Os apóstolos declararam:
"Mais importa obedecer a Deus do que aos homens." (Atos 5:29)
Portanto, respeitar as autoridades não significa concordar com todas as suas decisões, muito menos abandonar a responsabilidade de defender a justiça.
Mas existe uma diferença entre questionar um governo e estimular a desordem; entre exercer oposição e promover perseguição; entre manifestar inconformidade e desrespeitar os princípios democráticos.
A discordância política é legítima. O ódio, a violência e a perseguição não encontram justificativa nos ensinamentos de Jesus.
5. O RESULTADO DAS URNAS NÃO DETERMINA A SOBERANIA DE DEUS.
Aqui está uma das maiores confusões que precisam ser enfrentadas no ambiente religioso.
A vitória eleitoral de um candidato não representa, automaticamente, a aprovação divina de suas propostas.
Da mesma maneira, a derrota de um candidato não significa que Deus foi derrotado, que a Igreja perdeu sua missão ou que o Reino de Deus sofreu alguma ameaça.
Jesus declarou:
"O meu Reino não é deste mundo." (João 18:36)
Essa declaração não significa que os cristãos devam abandonar sua responsabilidade social e política.
Significa que o Reino de Cristo não pode ser reduzido a projetos eleitorais, partidos, ideologias ou interesses de grupos.
A Igreja não pode condicionar sua fidelidade a Deus ao resultado de uma eleição.
Não podemos transformar candidatos em representantes exclusivos da vontade divina, nem tratar adversários políticos como inimigos do Reino de Deus.
Deus não precisa de uma vitória eleitoral para continuar governando. Cristo não depende de uma maioria nas urnas para exercer sua autoridade.
6. QUANDO A POLÍTICA CONTAMINA A COMUNHÃO ENTRE OS IRMÃOS.
Talvez este seja um dos aspectos mais preocupantes dessa realidade.
Quando cristãos passam a perseguir, desprezar e hostilizar outros cristãos por causa de suas escolhas políticas, alguma coisa precisa ser examinada na compreensão que possuem do Evangelho.
A Palavra de Deus é objetiva:
- 1 João 3:15: aquele que odeia seu irmão é apresentado em uma condição espiritual gravíssima.
- Efésios 4:31-32: somos orientados a abandonar amargura, ira, gritaria e maldade, praticando bondade e perdão.
- Gálatas 5:22-23: amor, paz, longanimidade, benignidade, mansidão e domínio próprio são frutos do Espírito.
- Romanos 12:18: devemos buscar a paz com todos, quanto depender de nós.
Não podemos defender o Evangelho utilizando comportamentos contrários ao próprio Evangelho.
Não podemos pregar amor e cultivar ódio.
Não podemos anunciar reconciliação e estimular perseguição.
Não podemos falar de unidade espiritual enquanto alimentamos divisões por interesses políticos.
A pergunta não é apenas em quem cada cristão votou. A pergunta também é: que testemunho estamos oferecendo depois que as urnas foram apuradas?
7. A MISSÃO DA IGREJA NÃO TERMINA QUANDO AS URNAS SÃO APURADAS.
A Igreja precisa compreender que sua missão não é garantir a permanência de determinado grupo político no poder.
Sua missão é anunciar Jesus Cristo, ensinar as Escrituras, defender a justiça, acolher os necessitados e testemunhar os valores do Reino de Deus.
Romanos 13:1-2 apresenta princípios sobre o reconhecimento das autoridades constituídas.
Primeira Pedro 2:13-17 também orienta os cristãos quanto ao respeito às instituições e às autoridades.
Essas orientações precisam ser compreendidas juntamente com o dever bíblico de denunciar injustiças e obedecer a Deus acima de qualquer determinação humana contrária à sua vontade.
A Igreja não deve ser omissa diante dos problemas da sociedade, mas também não pode se transformar em instrumento de confrontos político-partidários.
Seu compromisso maior não é com quem governa, mas com aquele que é Senhor sobre todos.
8. UMA ADVERTÊNCIA À IGREJA BRASILEIRA: QUEM ESTÁ GOVERNANDO NOSSAS ATITUDES?
Diante de um resultado eleitoral que contraria as expectativas de parte da população, precisamos perguntar:
- Estamos exercendo nossa cidadania ou alimentando nossa inconformidade?
- Estamos defendendo princípios ou interesses partidários?
- Estamos promovendo a justiça ou estimulando a hostilidade?
- Estamos sendo conduzidos pelo Espírito Santo ou pelas emoções produzidas pelas disputas políticas?
- Estamos anunciando o Reino de Deus ou tentando associá-lo a projetos humanos de poder?
O Salmo 2 termina com uma declaração que merece nossa atenção:
"Bem-aventurados todos os que nele confiam." (Salmo 2:12)
Nossa confiança precisa estar em Deus.
Não na força de um governante, na popularidade de um candidato, na influência de uma liderança religiosa ou na vitória de uma ideologia.
Os governos são temporários. As autoridades humanas são limitadas. Os projetos políticos passam.
A soberania de Deus permanece.
CONCLUSÃO: A IGREJA PRECISA ESCOLHER A QUEM SERVE, NÃO A QUEM ADORA POLITICAMENTE.
O Salmo 2 nos ensina que nenhum poder humano está acima de Deus. Também nos chama a refletir sobre os limites da autoridade, a prudência e a necessidade de reconhecer a soberania divina.
Não somos obrigados a concordar com um governo para respeitar as instituições democráticas.
Não precisamos abandonar nossas convicções para conviver pacificamente com quem pensa diferente.
E não precisamos transformar nossas preferências políticas em exigências espirituais para os demais cristãos.
A Igreja pode e deve participar da vida pública, defender a justiça e questionar os governantes. Mas jamais deve permitir que a política ocupe o lugar da Palavra de Deus.
A eleição define quem ocupará temporariamente uma função de governo. Não define quem é o Senhor da Igreja.
E fica a pergunta que todos nós, independentemente de nossas convicções políticas, precisamos responder:
SE O NOSSO REINO É O DE CRISTO, POR QUE PERMITIMOS QUE UMA DISPUTA ELEITORAL SE TORNE MAIOR DO QUE O NOSSO COMPROMISSO COM O EVANGELHO?
Que a Igreja brasileira recupere a prudência, preserve a comunhão, pratique a justiça e mantenha seus olhos naquele que verdadeiramente reina.
JESUS CRISTO É O SENHOR. E SUA AUTORIDADE NÃO ESTÁ EM DISPUTA NAS URNAS

